Contos, crônicas, poesia visual, relatos de viagens, fotografias, eventos literários... um pouco de cada uma das minhas paixões.
Gostou do blog? Divulgue!
sábado, 28 de junho de 2014
Ah, Lua...
Ah, Lua atrevida
Escancarada
Pornográfica
Matando de inveja Saturno e seus anéis
Ah, Lua...
Lua?
Ah...
Luana...
terça-feira, 10 de junho de 2014
Golpe do telefone
— Alô.
— Alô, bom dia! O senhor acaba de ganhar da Super Rádio Brasil Bacana FM uma maravilhosa TV LCD de 29 polegadas. Qual o seu nome?
— Meu nome?
— Sim! Precisamos do seu nome e endereço para entregar o prêmio!
— Olha aqui, seu vagabundo, você acha que eu sou otário? Antes era o tal do sequestro de parente por telefone, depois o cidadão tinha que comprar cartão telefônico pra ganhar prêmios inexistentes, agora vocês vêm com essa de prêmio do rádio?? Vai trabalhar, vagabundo!
...........
— Alô.
— Alô, boa tarde! O senhor acaba de ganhar da Super Rádio Brasil Bacana FM uma maravilhosa TV LCD de 29 polegadas. Qual o seu nome, meu amigo?
— Que nome o que, ô cacete, você acha que eu não vejo televisão? Vai aplicar golpe em outro, mané!
...........
— Alô.
— Alô, minha amiga felizarda, boa noite! A senhora acaba de ganhar da Super Rádio Brasil Bacana FM uma maravilhosa TV L...
(A mulher desliga repentinamente o telefone).
...........
Todos estão perplexos. O povo estava bem informado e por isso a tática de abordagem deveria mudar.
O radialista, por fim, desabafa com o chefe:
— Pô cara, ninguém tá acreditando mais na gente!!
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Agruras de escritor
O escritor independente — mas dependente de grana e leitores — mudou-se de residência e levou pessoalmente a caixa com dezenas de seus livros recém-publicados e ainda encalhados. Chegando a casa, deixou seu tesouro sob responsabilidade da empresa de mudanças e saiu para resolver pendências.
Ao voltar, visitou a caixa e sentiu falta de metade dos volumes.
Exclamou consternado, entre aflição e alegria:
"Roubaram meus livros!!!"
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
A vaquinha do Genoíno
José Genoíno é mentiroso ou incompetente?
Pergunto isso ao me deparar com a notícia de que correligionários criaram um site para arrecadar dinheiro, a fim de que o ex-deputado condenado pague a multa de quase 500 mil reais por conta do Mensalão. A família de Genoíno alega que ele não tem o dinheiro suficiente para pagar esse valor, além de possuir apenas um apartamento em seu nome.
É aí que entra a pergunta acima.
Acompanhem-me: José Genoíno, durante mais de 20 anos, foi deputado estadual por São Paulo; exerceu outros cargos no decorrer de sua vida pública, então, eu pergunto: o que Genoíno fez com essa bolada? Seus correligionários me farão rir se alegarem que o petista repassou esses valores para obras sociais ou mesmo para o partido.
Como entender que, em 30 anos de carreira, sempre com expressivo salário, ele não foi capaz de adquirir bens, para usufruto e investimento? Que não foi capaz de investir na poupança ou fundo de investimentos? Ou o ex-deputado é um mentiroso, que não quer tirar dinheiro do próprio bolso para pagar a multa, ou realmente não possui tal quantia; nesse caso, podemos inferir que, se é incompetente a ponto de não oferecer um bem estar a própria família depois de três décadas, o que deixou de fazer pelo Estado que o elegeu nessas décadas.
E então, qual a sua opinião: o ex-deputado é mentiroso ou incompetente?
.......................
Essa cronicazinha já está desatualizada parcialmente. José Genoíno conseguiu pagar sua multa; mas campanhas semelhantes serão criadas para Delúbio Soares, José Dirceu e João Paulo Cunha. Mudam-se os personagens, não a surrealidade da situação.
Essa cronicazinha já está desatualizada parcialmente. José Genoíno conseguiu pagar sua multa; mas campanhas semelhantes serão criadas para Delúbio Soares, José Dirceu e João Paulo Cunha. Mudam-se os personagens, não a surrealidade da situação.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Natal Brasileiro
Atravesso as montanhas e chego a singela vila interiorana. Localizada a menos de uma centena de quilômetros da capital, a pequena cidade era o grande refúgio dos estressados habitantes da metrópole. Era uma estância hidromineral e suas águas eram procuradas para os mais diversos fins.
Era época de Natal, e minha intenção era justamente entregar presentes às crianças carentes do lugar. Embora a capital também estivesse repleta de pessoas nessas condições, queria aproveitar a ocasião para usufruir do clima e das belezas de Lagoa Funda.
Após hospedar-me em uma pousada no centro da cidade, fui passear pela praça principal, enfeitada de pinheiros decorados que contrastavam com os ipês e jacarandás nativos; milhares de bolinhas de isopor estavam espalhadas nos canteiros, a imitar flocos de neve. Pelas lojas, papais noéis sentados, à procura das crianças e, por tabela, dos pais que receberam o 13°. Próximas ao parque, charretes coloridas transportavam turistas, ávidos também para conhecerem as centenas de lojas de artesanato e lembrancinhas.
No dia seguinte à minha chegada, conheci um guia-mirim, Lucas. Como trouxera muitos presentes, resolvi lhe entregar um. Mas pensei em fazer isso na sua própria casa, até para conhecer melhor as pessoas e costumes do lugar. Combinamos que eu passaria lá no final da tarde, já que Lucas trabalharia durante o dia acompanhando os turistas. Por outro lado, eu também passaria o dia entregando os brinquedos em um orfanato.
No início da noite, entrei na tortuosa rua calçada de paralelepípedos; não estava tão bem conservada, certamente por estar localizada na periferia e não ser passagem freqüente de turistas. Achei a casa do garoto sem dificuldades: ele me esperava no portão.
Estava sozinho. A mãe rezava na igreja, o pai, ainda trabalhando, e os 3 irmãos na casa dos vizinhos, onde ele também estaria se não estivesse a minha espera.
Após entrar na casa e me sentar no sofá, abri a sacola e lhe dei o presente. Apesar da impetuosidade de seus 8 anos, abriu o pacote com cuidado (certamente para usar o papel de presente em outra oportunidade) e passou a admirar o boneco de um Papai Noel de pano, vestido com seu casaco vermelho e conduzindo o trenó com a ajuda das renas. O trenó possuía pequenos pacotinhos, como se fossem presentes.
“Renas, casaco de frio, trenó?” Deve ter pensado o garoto, num instante de reflexão que, confesso, nem eu, como adulto, tivera. Apesar da inconfundível simpatia desse símbolo, o Papai Noel naqueles trajes, com aqueles animais e conduzindo um trenó não parecia combinar com o que se via pelas ruas do nosso país.
— É bonito. — respondeu-me afinal — mas meu Papai Noel é outro.
— É bonito. — respondeu-me afinal — mas meu Papai Noel é outro.
— E qual é? — perguntei, espantado.
Ouvindo um barulho na rua, ele pegou-me pela mão e me puxou para fora da casa. Próximo ao portão, apontou-me alguém e me disse:
— É ele.
— É ele.
Era seu pai, vestido com uma surrada calça e camisa social meio aberta; conduzia uma colorida charrete de turistas, guiadas por dois cavalos sem raça definida. Na pequena carroça, algumas sacolas imitando presentes: na verdade, o alimento do dia.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Ativistas x Cientistas
O Brasil está entrando em um caminho perigoso: movido pela inércia do Judiciário e pela corrupção que campeia o Executivo e o Legislativo, a população resolveu não esperar e fazer justiça com as próprias mãos.
O problema é o que cada um entende como justiça.
Nessa semana, dezenas de ativistas pelos direitos dos animais invadiram um laboratório particular legalmente credenciado e roubaram 178 beagles que ali estavam a serviço da ciência; junto com os animais, destruíram também documentos e equipamentos. A alegação era a de que o laboratório torturava os animais e de que o Ministério Público não se pronunciava a respeito.
A primeira vista, é fácil ficar do lado dos ativistas. No entanto, basta um pouco de discernimento e de pé no chão para perceber que a atitude deles prejudicou até mesmo a causa que apoiavam, a de que o Laboratório Royal maltratava os bichos. Agora, sem os animais e os documentos, provavelmente o processo (penal?) será extinto por falta de provas.
Pergunto-me também se o laboratório tivesse convocado cientistas e simpatizantes para fazer frente a invasão. Ou seja: em vez de o Judiciário definir a questão, tudo pareceria se resolver com os grupos se digladiando. Mais Idade Média, impossível.
Não sou especialista em biologia e por isso não posso afirmar se é mesmo possível substituir os animais em toda e qualquer pesquisa. Particularmente, creio que não: programas de computador não me parecem capazes de prever as nuances de cada substância inoculada em um organismo vivo. Os mamíferos em geral são escolhidos para experiências em laboratório justamente por causa disso, visto que sua biologia interna é muito parecida com a dos humanos: todos têm sistemas respiratórios, circulatórios e reprodutivos com os mesmos órgãos que as pessoas.
Em todos os portais de notícias a invasão foi um dos principais assuntos da semana. No Yahoo, que eu costumo acompanhar mais por causa de meu e-mail, foi fácil perceber que cerca de 70% das pessoas que comentavam a notícia apoiavam os ativistas; questionados por alguns dos 30% restantes sobre como os cientistas pesquisariam novos medicamentos sem os animais, as respostas foram estarrecedoras: que se usassem então presidiários.
Embora certamente muitas pessoas não sejam dignas de serem tratadas como humanos, não é rebaixando-as ainda mais que a humanidade evoluirá. Uma das últimas pessoas a levar a sério os experimentos com humanos foi o médico nazista Josef Mengele, e a simples palavra “nazista” ao lado de seu nome já nos faz imaginar as consequências de tais experiências. Ou seja, boa parte dos ativistas parece mesmo acreditar que o melhor é que se usem seres humanos para tais experiências, inclusive não se importando com a eventual morte de tais pessoas. Pretendem criar uma nova ordem mundial e boa parte não se importaria em copiar a ideologia eugenista dos nazistas para tanto.
Em suma, estamos bem de ativistas, hein?
A propósito, dois dos beagles já foram resgatados pela polícia. Estavam abandonados, caminhando perto do laboratório.
sábado, 5 de outubro de 2013
Encontro
Você me olha
E não sabe os séculos que carrego
Meus olhos negros e a pele cor de terra não disfarçam:
em algum lugar das arábias surgiram meus antepassados
Séculos depois, escolheram a península italiana para morada
estabeleceram-se em Verona, ao norte,
talvez fugindo de tiranos ou inimigos
Passaram as gerações
E veio o século 20
com suas ditaduras, crises e a primeira guerra mundial
Os navios europeus atravessam o oceano
e para o novo mundo trazem os desesperados
Aportam no litoral do Brasil
Muitos seguem para o interior, a procura de um clima familiar.
Minas recebeu vários, incluindo os meus
A terra das montanhas promoveu o encontro entre avós e pais
E, por fim, estou aqui, no coração do país
Olhando seus olhos castanhos que também carregam histórias antigas
Seu passado é ainda mais cigano
e Deus teve algum trabalho para moldar-lhe o corpo e o espírito
Minha Afrodite:
Moçambique, Palestina, Itália, também viram seus antepassados
até se encontrarem em Portugal
No fim, talvez os mesmo navios que carregaram os meus também trouxeram os seus
Quem saberá?
Nossos antepassados podem ter sido parceiros nas cartas, nas danças e festas
Quiçá tiveram pequenos namoros a bordo ou refletiam juntos sobre o futuro,
fitando o mar até se despedirem no porto
Os seus escolheram como morada Belém e São Luís
e depois vieram como tantos para o cerrado de Brasília
Finalmente nos encontramos aqui, nesse lugar improvável,
porque nem sempre as belas histórias começam em belos cenários.
Nessas horas, para que lembrar que carregamos a história da humanidade?
Como todos, não somos filhos apenas de nossos pais
Assim foi o caminhar até aqui
E o brilho que está em ossos olhos, sinaliza: começa agora a nossa história.
domingo, 15 de setembro de 2013
Manhã
Acorda
Estique braços e pernas
Boceje.
Agora me abraça:
meu coração também precisa espreguiçar.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Museu Nacional dos Correios - Brasília (DF)
Inaugurado em 15 de janeiro de 1980, o Museu Postal e Telegráfico da ECT fechou para reformas e reabriu em 25 de Janeiro de 2012.
Além do acervo relacionado aos correios, abriga exposições temporárias.
Modelos diversos de caixas de coleta, do período imperial e da república
Caixa de coleta da época imperial.
A caixa maior foi a primeira do período republicano, com 2 metros de altura e 500 quilos; a menor também é republicana, do tipo parede.
Caixa de coleta do império, tipo parede. Repare que as caixas de coleta da época imperial e as dos primeiros momentos da república eram quase idênticas: a única diferença é a estrela (que representa a república) no lugar do brasão imperial (coroa vermelha e amarela com uma cruz no topo). Isso ocorreu porque, com o advento da república, os símbolos do império foram excluídos.
Réplica de um furgão postal, utilizado no Rio de Janeiro.
O barco de cima é réplica de uma canoa do rio São Francisco. A de baixo é uma canoa das monções, utilizada na última fase do ciclo do ouro no Brasil.
Réplicas de aviões já utilizados pelos Correios.
ENDEREÇO: SCS - Setor Comercial Sul, Qd. 4, Bl. A, nº 256, Ed. Apolo
TELEFONE: (61) 3426-1000
HORÁRIO DE VISITAÇÃO: terça a sexta, entre 10 e 19 horas; sábados, domingos e feriados, entre 12 à 18 horas.
ESTACIONAMENTO: o museu está no Setor Comercial Sul, justamente a área mais movimentada de Brasília. Existe estacionamento gratuito ao redor, mas é quase impossível encontrar vaga depois das 7 e meia da manhã. É preferível descer na estação de ônibus da W3 Sul (próximo ao shopping Pátio Brasil) e caminhar até o museu; outra alternativa é descer na estação de metrô da Galeria. Para visitas mais tranquilas, escolha os finais de semana.
ENTRADA: gratuita
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Memes
Para nossa alegria
Hoje é dia de rock, bebê!
Vamos todos tomar uns bons drinks,
e comer uns sanduíches, íches, íches
menos Luíza, que está no Canadá.
Que deselegante!
Isso é muita falta de sacanagem...
Obs: memes é um conceito moderno, que surgiu com a internet. São vídeos, frases e gestos que surgem espontaneamente, como um bordão. Via de regra são repetidos a exaustão por poucos dias ou semanas, até o surgimento de outros memes.
Hoje é dia de rock, bebê!
Vamos todos tomar uns bons drinks,
e comer uns sanduíches, íches, íches
menos Luíza, que está no Canadá.
Que deselegante!
Isso é muita falta de sacanagem...
Obs: memes é um conceito moderno, que surgiu com a internet. São vídeos, frases e gestos que surgem espontaneamente, como um bordão. Via de regra são repetidos a exaustão por poucos dias ou semanas, até o surgimento de outros memes.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Km 08
O destino me enviara recentemente àquela estrada nas montanhas; desde então, dia e noite a percorria sozinho no carro. Eventualmente dava caronas para moradores da região, e através deles descobri a história do lugar.
No topo de uma daquelas montanhas, no início do século vinte, surgiu uma pequena vila militar, com um forte onde se vigiava o horizonte. A má qualidade da terra encareceu a permanência dos militares, visto que todos os mantimentos precisavam vir da planície; poucos anos depois, se transferiram para outra região. O local, que passou a ser conhecido na região como Vila Um, permaneceu abandonado, sendo usado apenas como base de apoio por eventuais alpinistas e moradores da região, que cortavam lenha nas proximidades.
Quilômetros abaixo, surgiu posteriormente a Vila Dois, hoje habitada por não mais que mil pessoas, vivendo da agricultura e de um turismo incipiente. Após tal vila, existiam algumas outras, a beira de uma estrada de terra que levava a rodovia principal da região.
Na noite de uma sexta-feira, próximo a Vila Um, vi um rapaz no acostamento, pedindo carona. Loiro, forte, cabelos curtos, mancha escura na face, e com aproximadamente vinte anos de idade; devido a noite escura, não percebi muitos detalhes da roupa e nem da mochila que carregava. Embora soubesse que a carona é algo comum em cidades e vilas do interior, mas ainda amuado pelas paranóias da cidade grande, em que a maioria dos bandidos que pedem carona são homens e jovens, não parei e segui meu caminho. As caronas que dera anteriormente se resumiram a idosos e mulheres.
Contudo, alguns quilômetros depois, mais abaixo na montanha, na Vila Dois, tive a clara impressão de ver o mesmo rapaz parado. Igualmente louro, forte, jovem, de cabelos curtos e uma mancha na face.
Lembrei-me das lendas urbanas que relatavam sobre fantasmas pedindo carona em rodovias; em uma primeira versão, apareciam em pontos diversos da estrada, como a perseguir determinado motorista; em outros relatos, quando alguém aceitava transportar a pessoa, esta pedia para saltar na frente do cemitério ou em uma casa, onde posteriormente, se descobriria, através de uma foto, tratar-se de um familiar morto.
Acossado pela curiosidade, decidi parar o carro.
................
O rapaz entrou no veículo e, após aparentar surpresa ao me ver, olhou para a frente e disse apenas o destino.
“Fico no quilômetro oito, por favor”.
Tentei puxar conversa, mas respondia com frases lacônicas e em momento algum olhou em minha direção. Parecia nervoso e ansioso para chegar logo ao destino.
Relembrei as tais lendas urbanas ao passarmos em frente a um antigo cemitério usado pelos primeiros moradores da região. Desativado há duas décadas, raríssimas vezes era ainda visitado por algum parente dos falecidos. Contudo, ao passarmos em frente ao local, o rapaz apenas fez o sinal da cruz e... permaneceu no veículo.
Minutos depois, chegamos ao quilômetro oito, onde uma pequena vila, de não mais que vinte casas, se assentava.
“Fico naquela casa amarela, na esquina”, informou o carona.
Parei o carro, ele agradeceu sem me olhar e desceu. Curiosidade ainda tenho, mas não tive a chance de procurar posteriormente a casa para verificar a possibilidade de ele ser um morador falecido.
Olhei para a frente e vi a antiga placa que identificava a vila sem nome oficial; era de madeira, pintada pelos próprios moradores, e o material já apodrecido a fazia pender para o lado, deixando o oito na horizontal. Enquanto o rapaz mexia com uma mala, segui em frente.
................
Após certificar-se do afastamento do carro, o rapaz da carona, um fotógrafo da própria região que estivera na Vila Dois tirando fotos para uma revista de turismo, parou de fingir que mexia na mala. Levantou-se ao ver os faróis desaparecerem na escuridão. Passou reto pela frente da casa amarela, na verdade um restaurante desativado onde ninguém entrava há mais de dez anos. Virou a esquina e entrou em um sobrado a alguns metros de distância. A sua casa.
Dirigiu-se a um depósito, onde procurou o jornal da região, publicado semanas antes. Encontrou o exemplar, localizou uma matéria com foto e ligou para o irmão gêmeo, também um fotógrafo, que estivera na Vila Um documentando o passado da região; àquela hora poderia estar a beira da rodovia, esperando carona. Alertou-o a não aceitar carona de um homem dirigindo um Gol, modelo antigo, de cor verde: o veículo que o trouxera até ali. Que voltasse a pé ou conseguisse carona com outra pessoa; na volta, lhe explicaria o porquê.
Deixou o jornal na mesa da sala e sentou em uma poltrona, de onde só saiu até a chegada do irmão, uma hora depois.
................
No Gol verde, o motorista ainda percorria a estrada, que dava a volta na montanha. Passou novamente em frente à Vila Um, mas o primeiro rapaz (ou seria o mesmo?) já não se encontrava. Antes de chegar em frente ao cemitério, passou por uma ponte. Não poderia perceber, mas no fundo do rio logo abaixo havia um Gol verde, capotado há alguns dias, com apenas um ocupante, um homem. Apesar da morte na rodovia, a vítima não se machucara tanto, e seu rosto possuía apenas um grande corte nas têmporas. O mesmo corte que assustara o rapaz da carona.
Apesar da ligação para os bombeiros do jovem fotógrafo, que o reconheceu na fotografia do jornal, seu corpo permaneceu perdido nas águas do rio, sendo consumido pelo tempo; sua alma, perdida nas curvas da estrada.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Idioma
Hoje é o Dia da Língua Portuguesa, por isso publico hoje uma pequena homenagem ao nosso idioma, às vezes tão depreciado em nosso próprio país...
Tudo bem
inglês é legal, principalmente o molho
mas aqui falamos português, ô cacete!
Cansado de me sentir estrangeiro em meu próprio país
Daqui há pouco não tem tchau, só bye
e nem Oi, só Hi
Pro raio que o parta!
... Liquidação virou off
Aprendiz é trainee
Contínuo é office boy...
...e se for mais velho, é office old?
Aquele acessório do computador
sempre foi mouse
Mas ouse!
E coitados dos velhos bambas:
Noel, Cartola, Nelson Gonçalves, Gonzagão
Agora não tem mais o poético cancioneiro
chamam agora de songbook...
Glup!
desculpem falar de boca cheia
Saci, boitatá, curupira, mula sem cabeça
não foram convidados pro Halloween
mas roubei a tal abóbora,
E dá-lhe camarão na moranga
É ruim, hein???
Tudo bem
inglês é legal, principalmente o molho
mas aqui falamos português, ô cacete!
Cansado de me sentir estrangeiro em meu próprio país
Daqui há pouco não tem tchau, só bye
e nem Oi, só Hi
Pro raio que o parta!
... Liquidação virou off
Aprendiz é trainee
Contínuo é office boy...
...e se for mais velho, é office old?
Aquele acessório do computador
sempre foi mouse
Mas ouse!
E coitados dos velhos bambas:
Noel, Cartola, Nelson Gonçalves, Gonzagão
Agora não tem mais o poético cancioneiro
chamam agora de songbook...
Glup!
desculpem falar de boca cheia
Saci, boitatá, curupira, mula sem cabeça
não foram convidados pro Halloween
mas roubei a tal abóbora,
E dá-lhe camarão na moranga
É ruim, hein???
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Cemitérios
A paz dos cemitérios é perene, definitiva,
imorredoura
Os furacões não os vencem,
apenas contornam seus muros,
fronteira entre o ser e o não ser,
que protegem as terras inférteis,
ignoradas pelos ditadores
por só produzirem lembranças
Repare: não há apenas solidão e silêncio
Mas também trégua
Pelos cemitérios não há alegria.
Também não há batalhas,
desespero
cansaço
fome
Pois a morte já levou tudo
a dor
a dúvida
Não duvides: após a cerca
por vezes, os mortos somos nós.
imorredoura
Os furacões não os vencem,
apenas contornam seus muros,
fronteira entre o ser e o não ser,
que protegem as terras inférteis,
ignoradas pelos ditadores
por só produzirem lembranças
Repare: não há apenas solidão e silêncio
Mas também trégua
Pelos cemitérios não há alegria.
Também não há batalhas,
desespero
cansaço
fome
Pois a morte já levou tudo
a dor
a dúvida
Não duvides: após a cerca
por vezes, os mortos somos nós.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Ermida Dom Bosco - Lago Sul (DF)
A Ermida Dom Bosco foi a primeira construção concluída em Brasília, mas não fica na capital propriamente dita. O pequeno templo está no Lago Sul, um bairro de classe alta, em cima de um morro com visão privilegiada da capital. A construção fica em um ponto por onde passa o paralelo 15, local em que Dom Bosco, em sonho, anteviu em 1883 a construção "de uma cidade onde correria o leite e o mel", e que foi associado com o surgimento de Brasília.
O monumento foi inaugurado em 1957, antes mesmo do surgimento do Lago Paranoá, que fica à frente. A capela tem a forma de uma pirâmide de base triangular revestida com mármore e com uma cruz de metal no topo. No seu interior há uma imagem de Dom Bosco esculpida em mármore de carrara, assinada pelos irmãos italianos Arreghini, além de uma placa de bronze com os seguintes dizeres:
" O sonho visão de Dom Bosco. Entre os paralelos 15° e 20° havia um leito muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago. Então uma voz disse repetidamente: quando escavarem as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a grande civilização, a terra prometida, onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível!"
A ermida está inserida há alguns anos no Parque Dom Bosco, com 131 hectares, que inclui também uma pequena trilha para caminhada e uma capela projetada por Niemeyer (esta construída em 2006). Há também uma praça usada em pequenos eventos e um pier.
O Por do Sol é famoso na ermida, motivo pelo qual muita gente o visita por volta das 18 horas.
Acesso ao Parque
O Lago Paranoá visto da ermida.
O Lago Paranoá com a capela de 2006. No alto do morro à frente, a Torre Digital.
Capela projetada por Niemeyer e construída em 2006.
O famoso pôr do Sol da ermida...
A ermida na época da construção, ainda sem o Lago Paranoá.
ENDEREÇO: QI 29 do Lago Sul, próximo à Barragem do Paranoá
TELEFONES: (61) 3367-4505 e 3367-2000
HORÁRIO DE VISITAÇÃO: todos os dias, de 07 às 19 horas
ESTACIONAMENTO: gratuito
ENTRADA: gratuita
Crédito das fotos: as coloridas são minhas. A que está em preto e branco foi retirada do http://brasiliapoetica.com.br/category/o-dia-a-dia-da-construcao/page/10/ e não tem autoria registrada.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Tristeza
Com porquês a mente se agita
o coração acelera
o sangue ferve
o estômago grita
Mas os olhos cansados fixam o chão
a cabeça pende
e a voz, silencia.
domingo, 31 de março de 2013
Oração
A velhinha segura com fervor o terço.
É sua maneira de conversar com Deus
Aperta com força uma das bolinhas de madeira
a sussurrar Pai-nossos, Ave Marias.
Nem todos respeitam seu sossego
e chove profusão de adjetivos:
carola, ultrapassada, sensível, caridosa
digna de pena
ou apenas digna.
... Alheia às tempestades
de críticas e elogios
seu coração sorri discreto:
nada a separará da comunhão com as estrelas.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
No colo da morte
Quando criança eu rezava
Para que a morte levasse a mim e meus parentes de ataque cardíaco.
à noite
em sono profundo
no silêncio de casa.
Já me espantavam as mortes violentas
pelo crime
pelos acidentes
pela guerra
Hoje não penso apenas em mim e na familia
Gostaria, será utopia?
Que a morte leve a mim e a todos
como uma mãe leva um filho.
Para que a morte levasse a mim e meus parentes de ataque cardíaco.
à noite
em sono profundo
no silêncio de casa.
Já me espantavam as mortes violentas
pelo crime
pelos acidentes
pela guerra
Hoje não penso apenas em mim e na familia
Gostaria, será utopia?
Que a morte leve a mim e a todos
como uma mãe leva um filho.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Bentinho
Sofria ao ver a esposa sofrer, a espera de um filho que nunca vinha.
De nada adiantaram exames, inseminação e promessas.
Desesperado, procurou uma jovem garota de programa e lhe fez a proposta: através de inseminação artificial, ela engravidaria dele e, ao fim da gravidez, lhe entregaria a criança. Durante esse período, lhe garantiria alimentação e pagaria os exames médicos.
O plano deu certo e a esposa não desconfiou. Ao fim de nove meses, uma criança abandonada na porta de casa.
A família tornou-se completa e a esposa, realizada. Mas Bentinho torcia quase em desespero: que o rebento jamais tivesse as suas feições.
De nada adiantaram exames, inseminação e promessas.
Desesperado, procurou uma jovem garota de programa e lhe fez a proposta: através de inseminação artificial, ela engravidaria dele e, ao fim da gravidez, lhe entregaria a criança. Durante esse período, lhe garantiria alimentação e pagaria os exames médicos.
O plano deu certo e a esposa não desconfiou. Ao fim de nove meses, uma criança abandonada na porta de casa.
A família tornou-se completa e a esposa, realizada. Mas Bentinho torcia quase em desespero: que o rebento jamais tivesse as suas feições.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Profecia maia
Não se preocupem
21 de dezembro não verá o fim do mundo
ao menos o fim do mundo como se imagina
O fim do mundo não é um planeta explodido,
um tsunami gigante,
um meteoro a la Holliwood
O fim do mundo acontece um pouco a cada dia
a cada morte violentada,
a cada acidente
a cada prisioneiro de guerra
A cada indivíduo que sofre, morre um pouco de seu mundo
Mas não imagine apenas os famintos, miseráveis, doentes
Ricos e saudáveis também sofrem
pois sua carne e sangue não são diferentes dos demais
Deixemos o calendário maia em paz
o fim do mundo de cada um não está próximo
mas impregnado em cada ser humano
E é um tigre faminto a um segundo do bote.
Fonte da foto: wikipédia
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Igrejinha de Fátima - Brasília (DF)
A Igrejinha de Fátima (ou simplesmente Igrejinha) foi a primeira edificação concluída em Brasília, sendo inaugurada em 28 de junho de 1958.
A motivação para construí-la partiu da então primeira-dama, Sarah Kubitschek, que fez uma promessa para a cura de uma de suas filhas. A construção do pequeno templo (que comporta cerca de 50 pessoas em seu interior) foi concluída após 100 dias de construção.
Foi projetada por Oscar Niemeyer, que se inspirou em um chapéu de freiras como modelo. Na parte externa estão azulejos de Athos Bulcão. Os afrescos com bandeirolas e anjos de Alfredo Volpi, nas paredes internas, foram cobertos por tinta em uma reforma ocorrida na década de 1960.
Recentemente, a igreja foi pintada internamente por Galeno, artista plástico residente em Brazlândia (DF), com um estilo semelhante ao de Volpi. As figuras foram feitas de forma a não se sobreporem as pintadas por Volpi, de forma que, se e quando houver tecnologia para remover a tinta sem prejudicar a obra original, isso possa ser feito.
Houve certa comoção na cidade quando Galeno iniciou as novas pinturas. Inicialmente eram muito abstratas, o que gerou reclamação dos frequentadores assíduos da igreja; o problema - em minha opinião - é que o templo é acima de tudo, uma igreja usada por vários fiéis, por outro lado, também é um museu em área tombada que possuía pinturas abstratas, o que deveria ter sido mantido. Finalmente, após algumas mudanças no projeto original, as novas pinturas foram finalmente concluídas. Os desenhos de tom lúdico se referem a própria origem do templo, construído após uma promessa feita para curar uma criança, e também ao fato de Nossa Senhora ter sido avistada em Fátima (Portugal) por três crianças; interessante notar que o rosto de Maria, tanto no trabalho de Volpi quanto no de Galeno, não tem traços fisionômicos. Segundo Galeno, sua motivação para pintar Maria sem rosto foi a homenagem a todas as mulheres que construíram Brasília, pois cada uma verá o seu próprio rosto na face da santa (confira mais no link http://www.portalaz.com.br/noticia/geral/164012)
Nossa Senhora sem traços fisionômicos.
Os painéis de Volpi...
,,, e os de Galeno.
Fonte das fotos: as coloridas, são minhas. A que retrata os desenhos de Volpi é de autoria desconhecida e está no Arquivo Público Nacional, segundo informa um site interessante de arquitetura, o Vitruvius - http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/11.125/3888
ENDEREÇO: Entrequadra 307/308 Sul
TELEFONE: (61) 3443-2869
HORÁRIO DE VISITAÇÃO: todos os dias, de 08:00 às 12:00 e de 13:00 às 19:00.
Há missas antes e depois desses horários, mas aí não dá pra ficar circulando pelo templo, né? A foto abaixo mostra o horário das missas, da secretaria e de outros trabalhos religiosos:
ESTACIONAMENTO: gratuito
ENTRADA: gratuita
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Reminiscências
Tinha 90 anos e estava morrendo.
Tranquila, sentou-se com suas lembranças em uma cadeira próxima à janela. Nas mãos, uma caixa com fotografias e pequenos objetos do marido e dos filhos, todos já falecidos.
Não estava com medo e aproveitou o tempo para rememorar a vida. Se detinha retrato a retrato, objeto a objeto, como uma forma de, quem sabe, levar aos céus a lembrança daquelas pessoas que tanto a fizeram feliz.
Após a última fotografia, um par de sapatos de bebê; eram para seu primeiro filho, que não chegara ao fim da gravidez, há mais de 70 anos.
Aquela lembrança a assaltava vez por outra. Posteriormente, teve outros três filhos, mas optou por nunca usar aqueles sapatinhos. Lembra-se que a primeira gravidez fora inesquecível: tornou-se o centro das atenções, o corpo mudara de formas, vizinhas lhe davam peças artesanais de roupas e o marido a beijava de uma maneira diferente na barriga.
Agora realmente fazia sentido a frase ouvida de uma antiga professora: cada um de nós só morre em definitivo quando morre a última pessoa que se lembra da gente. Aquela primeira gravidez que não foi em frente virou uma mera lembrança entre os familiares da época, sepultada pouco a pouco pelas partidas vindouras. Ela era a última que ainda sabia do fato. Seu primeiro bebê não tivera nome, história ou fotografias, apenas um par de sapatos que nunca usara. Agora, finalmente, seu pequeno anjo morreria em definitivo, junto com ela. Mas não da mesma forma que ela morrera um pouco quando ele se fora.
Para Hemingway, pelo "Vende-se sapatos de bebê, sem uso".
Fonte da foto: wikipédia
sábado, 25 de agosto de 2012
Memorial dos Povos Indígenas - Brasília (DF)
O Memorial dos Povos Indígenas, também conhecido como Museu do Índio, foi projetado por Niemeyer e construído em 1987, inspirado na forma de uma maloca yanomami. Possui uma área central com chão de areia, onde, geralmente no dia 19 de abril (Dia do Índio) são realizadas apresentações indígenas.
Permaneceu muitos anos fechado. O que se comentava em Brasília é que o então presidente José Sarney achava que o prédio era bonito demais para abrigar apenas acervo indígena; sua intenção seria transformar o local em um museu de arte. Após manifestações diversas de índios, o local foi finalmente aberto em abril de 1999.
Seu acervo é formado basicamente pela coleção etnográfica formada, entre 1948 e 1989, pelo casal de antropólogos Darcy Ribeiro (1922-1997) e Berta Ribeiro (1924-1997), e também pelo acervo de Eduardo Galvão (1921-1976). Estão representados 20 povos indígenas do Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins. São 380 peças, entre panelas, tecidos, redes, colares, flautas de osso, máscaras, utensílios de cozinhas, etc. A doação das peças ocorreu ainda em 1995.
ENDEREÇO: Eixo Monumental, nas proximidades do Palácio do Buriti e do Memorial JK
TELEFONE: (61) 3342-1156 ou 3344-1154
HORÁRIO DE VISITAÇÃO: 3ª a 6ª, entre 9:00 e 17:00; sábados, domingos e feriados, entre 10:00 e 17:00.
ESTACIONAMENTO: gratuito. Se não achar vaga, faça o retorno, e estacione no Memorial JK, situado a cerca de de 200 metros do Memorial.
ENTRADA: gratuita
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