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sábado, 25 de agosto de 2012

Memorial dos Povos Indígenas - Brasília (DF)



O Memorial dos Povos Indígenas, também conhecido como Museu do Índio, foi projetado por Niemeyer e construído em 1987, inspirado na forma de uma maloca yanomami. Possui uma área central com chão de areia, onde, geralmente no dia 19 de abril (Dia do Índio) são realizadas apresentações indígenas.

Permaneceu muitos anos fechado. O que se comentava em Brasília é que o então presidente José Sarney achava que o prédio era bonito demais para abrigar apenas acervo indígena; sua intenção seria transformar o local em um museu de arte. Após manifestações diversas de índios, o local foi finalmente aberto em abril de 1999.

Seu acervo é formado basicamente pela coleção etnográfica formada, entre 1948 e 1989, pelo casal de antropólogos Darcy Ribeiro (1922-1997) e  Berta Ribeiro (1924-1997), e também pelo acervo de Eduardo Galvão (1921-1976). Estão representados 20 povos indígenas do Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins. São 380 peças, entre panelas, tecidos, redes, colares, flautas de osso, máscaras, utensílios de cozinhas, etc. A doação das peças ocorreu ainda em 1995.




























ENDEREÇO: Eixo Monumental, nas proximidades do Palácio do Buriti e do Memorial JK

TELEFONE: (61) 3342-1156 ou 3344-1154

HORÁRIO DE VISITAÇÃO: 3ª a 6ª, entre 9:00 e 17:00; sábados, domingos e feriados, entre 10:00 e 17:00. 

ESTACIONAMENTO: gratuito. Se não achar vaga, faça o retorno, e estacione no Memorial JK, situado a cerca de de 200 metros do Memorial.

ENTRADA: gratuita

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Mártires



João Hélio

Isabela Nardoni

Eloá Pimentel

e agora

Rachel Genofre



Mártires conhecidos da violência

Capas de jornal

Matérias de teses em universidades



Quisera fossem apenas crianças desconhecidas

a brincar pela cidade.

       
As crianças e a jovem citados acima são:
 
João Hélio: assassinado em fevereiro de 2007, aos seis anos de idade, por criminosos que roubaram o carro da família e o deixaram preso pelo cinto de segurança, sendo arratasdo por alguns quilômetros na cidade do Rio de Janeiro.
 
Isabela Nardoni: assassinada pelo pai e pela madrasta na cidade de São Paulo, aos cinco anos de vida, em 2008. Foi jogada do sexto andar de um prédio.
 
Eloá Pimentel: assassinada aos 15 anos de idade, em 2008, pelo ex-namorado, em Santo André (SP)
 
Rachel Genofre: assassinada em 2008, seu corpo foi deixado dentro de uma mala na estação rodoviária de Cutitiba.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Dicionário de Escritores de Brasília


Tive a alegria de ser incluído na terceira edição do Dicionário de Escritores de Brasília, de Napoleão Valadares (André Quicé Editor, 2012). É a primeira vez que sou incluído em uma publicação desse tipo.

As edições dessa obra tem saído de nove em anos: a primeira ocorreu em 1994 e a segunda em 2003. Estive na casa do próprio autor para adquirir essa terceira edição; foi quando ele me disse que "quem entra, não sai mais". Assim, a cada edição, o dicionário aumenta suas páginas e se consolida como uma grande fonte de consulta sobre a história literária da capital; sua intenção é incluir o maior número de pessoas que publicaram livros ou fizeram parte de antologias, não necessariamente nascidas em Brasília, mas que aqui vivem ou viveram em algum momento de suas vidas. Nessa edição, estão presentes minibiografias de 1293 escritores, alguns de reconhecimento nacional, como Ferreira Gullar (que foi diretor da Fundação Cultural do DF na década de 60) e João Cabral de Melo Neto (chefe de gabinete do Ministério da Agricultura).

Há omissões, naturalmente, já que o número de pessoas que publicam livros - técnicos inclusive - sempre aumenta. Tive a curiosidade de procurar amigos desse meio, e percebi que alguns colegas desse "mundo da literatura" não estão presentes. Percebo que alguns deles tem o foco de divulgação de seus textos pela internet e não fazem parte de associações de escritores na cidade, o que de certa forma dificulta que se relacione tais pessoas a Brasília. Em outros casos, a pessoa publica um ou outro livro, que são vendidos ou distribuídos para familiares ou pessoas muito próximas. Não há repercussão na cidade e por isso tal publicação passa em branco entre os escritores daqui. Meu próprio pai escreveu um livrinho de memórias chamado "Lembranças". Mas tal livro foi impresso em casa, em 2001, teve poucos exemplares e foi distribuído para familiares, a maioria em Minas. Não gerou repercussão fora da família, até porque não era essa a intenção de seu Raymundo: o que ele queria era apenas dividir suas lembranças entre os parentes. Aliás, essa modalidade de literatura tem aumentado, com pessoas não necessariamente ligadas ao meio literário escrevendo suas histórias e dividindo com parentes e amigos.

Outra informação interessante nesse dicionário é que a cidade natal dos autores é informada. Daí se percebe a diversidade geográfica dos escritores, o que reflete a própria formação da população de Brasília, cidade construída por indivíduos de todos os Estados e de um grande cosmopolitismo. Há muitos autores de Minas, Goiás, e do nordeste em geral. Não por acaso, há poucos da região sul ou do norte, já que poucas dessas pessoas vieram a Brasília na época da construção e mesmo nos anos seguintes.

A obra também possui um pequeno histórico sobre a gênese literária em Brasília. Através dele sabemos que a primeira pessoa a escrever na nova capital foi o mineiro Clemente Luz (1920-1999), no caso, crônicas em jornais da Cidade Livre (hoje, Núcleo Bandeirante). Contudo, tais crônicas foram reunidas em livro apenas em 1968 (Invenção da cidade) e 1972 (Minivida). O primeiro autor a usar Brasília como cenário foi o também mineiro Garcia de Paiva, nascido em 1920. A obra é "Luana", que foi escrita em Brasília em 1960 mas foi publicada em São Paulo, dois anos mais tarde. Por fim, a primeira obra publicada na capital foi a antologia "Poetas de Brasília", através da Editora Dom Bosco, em 1962. O organizador foi o mineiro Joanyr de Oliveira (1933-2009).

Enfim, segue abaixo a minha minibiografia publicada no livro. Aproveito para informar que, excetuando a antologia "Nome de Mulher", ainda tenho exemplares das outras quatro obras citadas. Quem quiser adquirir alguma, é só entrar em contato através do glaubervieira2004@yahoo.com.br...


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Lanterna Verde é gay? Sei...




A "revelação" de que o personagem Lanterna Verde é gay explica o porquê de alguns escritores matarem seus próprios personagens, a  fim de que não sejam usados por outros após sua morte, eventualmente de uma forma que não gostariam. O caso mais famoso é o de Agatha Christie, que deu fim a seu famoso detetive Hercule Poirot no livro Cai o Pano; Sherlock Holmes também foi "assassinado" por Conan Doyle, mas voltou devido ao enorme apelo popular.

Lanterna Verde foi criado, em 1940, pelos cartunistas norte-americanos Martin Nodell (falecido em 2006) e Bil Finger (falecido em 1974). Foi reformulado na década de 1960 e, ao contrário do Super-homem - que sempre teve Clark Kent como sua "identidade secreta" -  muitos personagens adotaram a alcunha Lanterna Verde. O que eu particularmente entendo é que os traços biográficos de qualquer personagem são criados e só podem ser alterados pelo seu idealizador. Na ausência deste, necessariamente não morre sua criação, mas tudo o que terceiros acrescentam a ele é apropriação do nome e, talvez no presente caso, pura demagogia. É como se alguém inventasse que o Drácula, criado em 1897 por Bram Stoker, tinha a característica de sair à noite para beber sangue por causa de alguma doença, a fim de direcionar a atenção mundial para tal doença. Legalmente até poderia ser viável, mas nem todos levariam à sério tal "revelação", justamente porque não partiu de seus idealizadores.

É certo que muitos personagens, após a morte de seus criadores, tem sua denominação, aparência física e características controladas por grandes empresas do entretenimento. Assim, é plenamente válido que tais empresas usem-nos em novas plataformas - como o cinema - e na publicação de revistas e livros. Mas alterar ou acrescentar um dado "biográfico" que, na verdade, não tem relevância alguma nos enredos, está mais para a fabricação de falsas polêmicas e vendagem de produtos.

A DC Comics (que detém a propriedade intelectual de vários personagens super-heróis, incluindo o Lanterna Verde) pode até intencionar o apoio a causa homossexual no mundo. Mas certamente está mais preocupada com um possível aumento de venda de suas revistas. A indústria de quadrinhos nos Estados Unidos tem decaído nos últimos anos e uma das maneiras de diminuir os prejuízos é criar eventos absolutamente originais nas histórias. Além da orientação sexual de Lanterna Verde, outro fato marcante nesse sentido foi a morte do Super-Homem, um conjunto de histórias em quadrinhos publicado em 1992. Outra maneira de manter o patrimônio das empresas é ceder os personagens para o cinema, daí a grande quantidade de filmes com super-heróis hoje em dia.

Embora seja importante a participação da indústria cultural nas demandas sociais, creio que existem formas mais convincentes de se levantar determinada bandeira. Talvez mais útil fosse a criação de novos personagens, a representarem categorias pouco respeitadas no decorrer da história recente: muçulmanos, homossexuais, negros, deficientes, adictos (viciados em drogas), exilados políticos e, a partir daí, mesclarem essas novas criações com os antigos. Desta forma, sim, representariam um microcosmo da sociedade e seriam uma forma de mostrar as pessoas a possibilidade da convivência harmônica com qualquer grupo.


Fonte da ilustração: Wikipédia

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Incêndio na mata



Chamas lambem a terra



cinzas bailam no ar


Alheios a dança, galhos ressequidos apontam para o céu



como a suplicar a Deus a piedade dos homens.

Fonte da foto: Wikipédia

terça-feira, 24 de abril de 2012

Museu da Imprensa - Brasília (DF)


Conheci o Museu da Imprensa ainda adolescente, por volta de 1987, junto com meu pai e a Gleice, uma de minhas irmãs. Na época impressionou-me muito o acervo do lugar, especialmente o prelo onde trabalhou o mais importante escritor brasileiro, Machado de Assis. Imaginar que naquele equipamento trabalhou o grande escritor, era fascinante para mim.

O museu foi inaugurado em 13 de maio de 1982, e possui um acervo superior a 500 peças (a maioria relacionada a produção gráfica) e documentos (dentre os quais o Diário Oficial contendo a Lei Áurea, de 1888), preservados em um prédio de 680 metros quadrados, localizado nos jardins da Imprensa Nacional. Os próprios jardins também possuem suas atrações: um monumento que abriga os restos mortais de Hipólito José da Costa, patrono da imprensa brasileira, além da enorme impressora rotativa que imprimiu o primeiro Diário Oficial em Brasília.

Para mais informações sobre a história da Imprensa Nacional, acesse o link http://portal.in.gov.br/imprensa1/a-imprensa-nacional




 















Acima, o prelo apelidado de Machado de Assis, onde o autor trabalhou como aprendiz de tipógrafo, de 1856 a 1858. O diretor do Diário Oficial na época era Manuel Antonio de Almeida, autor de "Memórias de um Sargento de Milícias". Abaixo, algumas informações sobre o equipamento.






 


Acima, monotipo utilizado pela primeira mulher a trabalhar no serviço público no Brasil, Joana França Stockmeyer, homenageada como Patrona da Servidora Pública Brasileira, por decreto presidencial de 5 de março de 2008. Ela tomou posse em 04/01/1892 e aposentou-se em 1944. A máquina funcionava através de um sistema de punções no teclado, que perfurava uma fita, produzindo uma bobina de papel. Por sua vez, a bobina comandava o mecanismo de fundição e composição de tipos móveis de chumbo, para compor as páginas de livros, jornais, etc. A máquina é norte-americana, foi fabricada em 1918 e adquirida pelo Brasil em 1943.















O prelo Conde da Barca, uma réplica dos prelos trazidos, em 1808, pela Família Real Portuguesa, e que deram origem à Impressão Régia, atual Imprensa Nacional. A apresentação dessa peça ao público ocorreu em maio de 2008, durante as comemorações do bicentenário da Casa.








 Cofre em ferro maciço com 60 cm de altura. Origem e data de fabricação desconhecidos. Pertenceu à antiga Caixa de Pecúlio da Imprensa Nacional.


 Exemplar encadernado do Diário Oficial de 21 de setembro de 2000, o mais grosso já publicado.





Máquina rotativa da marca francesa Marinoni, fabricada em 1904. Uma das mais modernas de sua época, imprimia, cortava e dobrava o jornal, num total de 32 páginas por caderno e entre 14 e 15 mil impressões por hora. Recebeu o nome "Leopoldo de Bulhões" em referência ao Ministro da Fazenda da época, a qual a Imprensa Nacional foi vinculada até 1930.







ENDEREÇO: SIG (Setor de Indústrias Gráficas), quadra 06. O acesso é pela pista que liga o Eixo Monumental ao Setor Sudoeste.

TELEFONE: 0800 725 6787

HORÁRIO DE VISITAÇÃO:  segunda a sexta, de 8 às 17 horas.

ESTACIONAMENTO: gratuito

ENTRADA: gratuita

segunda-feira, 9 de abril de 2012

(Má)drugada



Chove, sim.

No asfalto,
na TV,

e dentro de mim.



Fonte da foto: o autor. Em casa.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Notícia atual

Senta na cama, vê algumas cenas da televisão e a desliga com o controle remoto. Retira as balas do revólver e as analisa uma a uma. Elimina uma delas e se detêm nas outras cinco. Recoloca-as no tambor, gira e fecha. Prepara-se para engatilhar, mas muda de idéia. Olha para o lado. Vê o frigobar e pega uma cerveja. Toma apenas um gole. Liga de novo a televisão. O filme pornô que se passava em uma casa de campo o faz reparar melhor no quarto onde se encontrava: piso de mármore, frigobar cheio, dois quadros com casais se amando (ou apenas transando?). O motel recém-inaugurado também oferecia uma gama de brinquedos eróticos, cujo catálogo se encontrava ao lado da cama; “Peça pelo número!”, estava na capa. Tomou mais um gole da cerveja e voltou a desligar a televisão. Engatilhou o revólver e fez a mira em uma parede. Abaixa novamente a arma e a deixa sobre a cama, a sua frente. Mais uma vez retira as balas, apreciando os detalhes de cada uma. Põe apenas uma delas no tambor e o gira, fechando-o rapidamente.

Lembrou-se das vítimas estúpidas da roleta da morte.

Não, ele sabia bem o que queria.

Não era preciso, mas, como um símbolo de que sua decisão era concreta, preencheu os outros espaços do tambor com as balas restantes. 

Dirigiu-se para a porta do quarto. Visualizou pela última vez o corpo da ex-noiva que, a contragosto, o acompanhara ao motel para conversar, negando mais uma vez o recomeço da relação. No seu peito esquerdo, a marca de sangue sinalizava o local de entrada do projétil.

Retirou do pescoço ainda quente da jovem a corrente de ouro com o pingente em forma de letra “M”, que ele dera de presente no dia do noivado, junto com a aliança, que Marcela já não usava.

Voltou para a cama. Retirou a bala já deflagrada dos lençóis e a examinou, como as outras. O pequeno cilindro dourado, sem o projétil que matara Marcela, foi colocado delicadamente em pé, no criado mudo. Em seguida mira o revólver em um quadro da parede, como a criar coragem. E rapidamente, voltou a arma para a própria cabeça. No átimo seguinte, apenas lamentou que o cartucho vazio de sua bala não fizesse companhia a outra.

Era, enfim, a última tentativa de unir-se a Marcela.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Velhinha com Alzheimer



Chegou devagar a sombra que eclipsa a memória

Primeiro foi a bisneta.
Seguiram-se os netos... 
... os filhos...
...por fim... o marido...

O falar delicado transmutou-se em balbucios e grunhidos, como bebê a buscar os pais

até que só lhe restou o silêncio
e o olhar absorto, igual o da criança procurando a mãe - que para ela já não existe há décadas



Partia aos poucos, como árvore de outono que no vagar seca


mas para renascer na estação seguinte













Fonte da foto: wikipédia. A pessoa retratada é a alemã Auguste Deter (1850-1906), primeira pessoa a ser diagnosticada com o Mal de Alzheimer.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Guerras






Na guerra entre o primeiro...






... e o segundo generais...














... quem perde são os terceiros.




Fonte das fotos: wikipédia

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Maria Baderna





Como bom atleta de final de semana, encontrava-me em minha corrida vespertina, realizada somente aos sábados (isso em caso de tempo bom). Para variar o caminho, saí de casa e não fui em direção ao parque. Meu destino naquele dia foi o campus da universidade.
Desacostumado com o esforço físico e castigado mais ainda pelo vigoroso Sol daquela tarde, já punha a língua de fora após dois quilômetros de percurso que me pareceram meia maratona.
Meu fôlego aumentou um pouco após a inesperada garoa que começou a cair. Contudo, a simpática chuvinha transformou-se em pouco tempo numa ameaçadora tempestade (efeitos do el niño...). Parei de correr e voltei-me num círculo a procura de um abrigo. A algumas dezenas de metros reconheci o imponente prédio da biblioteca universitária. Dirigi-me para lá correndo, gastando as últimas energias que possuía.
Cheguei à entrada do prédio arfando como uma pessoa afogada, mas procurei disfarçar haja vista a presença de simpáticas alunas no local. Fiquei na companhia delas que, como eu, esperavam a chuva diminuir um pouco para saírem do lugar.
Meus planos vieram por água abaixo (literalmente) quando uma rajada de vento praticamente me expulsou para dentro da biblioteca. Cheguei a óbvia conclusão de que, de bermuda e camiseta, debaixo daquela chuva e açoitado pelo vento, o máximo que conseguiria, se ficasse ali exposto, seria uma pneumonia.
Entrei no prédio e fiquei andando durante algum tempo pelos seus corredores, a fim de secar-me mais rápido. Entrei numa lanchonete e pedi um café. Pouco depois, já seco e aquecido, resolvi passear um pouco por entre os livros; sempre gostei de ler e queria descobrir as novidades.
Passeando por entre as estantes, deparei-me com um antigo livro de biografias, mas com uma particularidade: apenas mulheres estavam ali relacionadas, e todas tinham vivido no Brasil. Tirei-o da estante e me sentei em uma daquelas cabines que os universitários usam para o estudo.
Percorrendo o índice, encontrei as mais famosas personalidades brasileiras do sexo feminino: princesa Isabel, Bárbara Heliodora, Cecília Meireles e Maria Bonita, dentre tantas outras. E naquela extensa lista, reparei também em um nome que nunca ouvira falar: Maria Baderna.


Interessei-me de imediato por aquela história, afinal, já conhecia um pouco da biografia das outras mulheres.
“Com um nome desse, devia ser um poço de confusão, ou mesmo uma criminosa”, pensei.
Abri o livro na página indicada e, ao contrário das outras personalidades, não havia uma foto ou mesmo desenho para ilustrar a biografia. Era, sem dúvida, uma mulher do povo. Uma pena, pois queria ver o rosto daquela “baderneira” que merecera até mesmo um verbete de dicionário.
Pois bem, inicialmente descobri que Maria nascera na Europa em 1825, provavelmente na França ou Itália. Envolveu-se em movimentos políticos já na juventude e, em 1850, resolveu mudar-se para o Brasil. Após passar alguns meses em um navio, aportou no Rio de Janeiro, onde fixou residência.
“Até aqui, nada demais”, estranhei na hora.
E continuei: Maria se tornou dançarina, e deve ter alcançado algum destaque, pois segundo alguns, provocava desavenças e brigas entre os homens. Daí ter recebido o apelido de Maria Baderna.
Outros pesquisadores, no entanto, garantem que o apelido veio de outra forma: Maria também era abolicionista, e chegou a organizar quilombos no interior da província do Rio de Janeiro; ela participava dos movimentos sociais e encontros populares, que evidentemente reuniam uma multidão de pessoas ansiosas por reformas sociais e a própria liberdade. Com os nervos “à flor da pele”, era natural que eventualmente alguns desses eventos terminasse de forma mais agitada. As velhas raposas não perderam tempo em batizar a dançarina com esse apelido, numa clara maneira de tentar depreciá-la.
Interrompi a leitura e passei a refletir. Sem dúvida, a segunda versão me parecia mais convincente, afinal, a injúria é uma das formas mais eficientes para tentar anular a influência de uma pessoa que vai contra a ordem estabelecida e os interesses alheios. Para a chamada elite, pessoas com consciência política e baderneiros são simplesmente sinônimos.
Por fim, descobri que Maria morreu ainda jovem, em 1870. Tinha 45 anos e estava no interior da então província, talvez em um dos quilombos que ajudou a criar.
Fiquei alguns instantes imerso naquela pequena história, que mal ocupava uma página do livro e contrastava diretamente com a extensa biografia das princesas, nobres e grandes artistas ali descritas. Aquela simples página no meio de tantas para mim representava muito bem o que o povo significa na vida da nação como um todo: uma pequena folha de papel que muitas vezes passa despercebida.
Olhei em volta e percebi uma jovem paraplégica que procurava algum livro na estante; mais ao canto da sala, um senhor negro catalogava revistas para a seção de periódicos. Imaginei como Maria Baderna se contentaria ao perceber que, embora os negros, deficientes físicos (e outras minorias) ainda sofressem com o preconceito, eles já estavam livres, ao menos, dos grilhões de ferro, físicos e palpáveis. Restavam agora lhes libertar dos grilhões subjetivos, dos preconceitos e das condições menos favoráveis de vida. Mas isso, já era tarefa nossa.
Levantei-me após algum tempo e deixei a obra fechada sobre a mesa. Quando já saía do recinto, retornei repentinamente, voltei a abrir o livro naquela biografia, e o deixei aberto sobre uma mesa central: queria que outras pessoas descobrissem a história daquela interessante e injustiçada mulher.
E ao sair da biblioteca (a chuva já cessara), caminhando pelo campus em direção a minha casa, perguntei para mim mesmo qual seria o apelido mais adequado para aquela dançarina européia que, na casa dos 20 anos, se viu em um país tropical lutando pelo fim da escravidão:

Maria: Baderna ou VISIONÁRIA?








Obs: este conto foi publicado na antologia "Um nome de mulher", em 2002, sendo o 14º lugar do Prêmio Mário Cabral, organizado por Malva Barros, do extinto site www.armazem.literario.nom.br.


A fotografia que ilustra o conto pode ser encontrada em sites diversos da internet; basta procurar por Marietta Baderna nos sites de busca. O "Maria" foi um aportuguesamento de seu verdadeiro nome.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Selvagens




Praia da Paciência. Para alguns, a do Jó.
Revoada de animais revoltos
qual “Os Pássaros”, de Hichtcock.




Cercam a mim e pessoas próximas e nos bicam selvagens, sem dó.
O porquê? Ao mar, bóia o lixo e a tralha humana, entre si, envoltos
Da humanidade, o escroque.




Deixa pra lá. Os selvagens?
Somos nós.



Fotos: wikipédia

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Profissional liberal



O fiscal sai da casa avermelhada e conclui:






realmente não havia profissional mais liberal que a prostituta.








Fonte das fotos: Wikipédia

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Profissional de destaque



Era o ápice da carreira.

Finalmente, fora trancado em uma cela individual na penitenciária de segurança máxima.

Teria, à partir dali, o que ninguém conseguira oferecer-lhe:









Limites.









Obs: foto da Wikipédia