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terça-feira, 24 de abril de 2012

Museu da Imprensa - Brasília (DF)


Conheci o Museu da Imprensa ainda adolescente, por volta de 1987, junto com meu pai e a Gleice, uma de minhas irmãs. Na época impressionou-me muito o acervo do lugar, especialmente o prelo onde trabalhou o mais importante escritor brasileiro, Machado de Assis. Imaginar que naquele equipamento trabalhou o grande escritor, era fascinante para mim.

O museu foi inaugurado em 13 de maio de 1982, e possui um acervo superior a 500 peças (a maioria relacionada a produção gráfica) e documentos (dentre os quais o Diário Oficial contendo a Lei Áurea, de 1888), preservados em um prédio de 680 metros quadrados, localizado nos jardins da Imprensa Nacional. Os próprios jardins também possuem suas atrações: um monumento que abriga os restos mortais de Hipólito José da Costa, patrono da imprensa brasileira, além da enorme impressora rotativa que imprimiu o primeiro Diário Oficial em Brasília.

Para mais informações sobre a história da Imprensa Nacional, acesse o link http://portal.in.gov.br/imprensa1/a-imprensa-nacional




 















Acima, o prelo apelidado de Machado de Assis, onde o autor trabalhou como aprendiz de tipógrafo, de 1856 a 1858. O diretor do Diário Oficial na época era Manuel Antonio de Almeida, autor de "Memórias de um Sargento de Milícias". Abaixo, algumas informações sobre o equipamento.






 


Acima, monotipo utilizado pela primeira mulher a trabalhar no serviço público no Brasil, Joana França Stockmeyer, homenageada como Patrona da Servidora Pública Brasileira, por decreto presidencial de 5 de março de 2008. Ela tomou posse em 04/01/1892 e aposentou-se em 1944. A máquina funcionava através de um sistema de punções no teclado, que perfurava uma fita, produzindo uma bobina de papel. Por sua vez, a bobina comandava o mecanismo de fundição e composição de tipos móveis de chumbo, para compor as páginas de livros, jornais, etc. A máquina é norte-americana, foi fabricada em 1918 e adquirida pelo Brasil em 1943.















O prelo Conde da Barca, uma réplica dos prelos trazidos, em 1808, pela Família Real Portuguesa, e que deram origem à Impressão Régia, atual Imprensa Nacional. A apresentação dessa peça ao público ocorreu em maio de 2008, durante as comemorações do bicentenário da Casa.








 Cofre em ferro maciço com 60 cm de altura. Origem e data de fabricação desconhecidos. Pertenceu à antiga Caixa de Pecúlio da Imprensa Nacional.


 Exemplar encadernado do Diário Oficial de 21 de setembro de 2000, o mais grosso já publicado.





Máquina rotativa da marca francesa Marinoni, fabricada em 1904. Uma das mais modernas de sua época, imprimia, cortava e dobrava o jornal, num total de 32 páginas por caderno e entre 14 e 15 mil impressões por hora. Recebeu o nome "Leopoldo de Bulhões" em referência ao Ministro da Fazenda da época, a qual a Imprensa Nacional foi vinculada até 1930.







ENDEREÇO: SIG (Setor de Indústrias Gráficas), quadra 06. O acesso é pela pista que liga o Eixo Monumental ao Setor Sudoeste.

TELEFONE: 0800 725 6787

HORÁRIO DE VISITAÇÃO:  segunda a sexta, de 8 às 17 horas.

ESTACIONAMENTO: gratuito

ENTRADA: gratuita

segunda-feira, 9 de abril de 2012

(Má)drugada



Chove, sim.

No asfalto,
na TV,

e dentro de mim.



Fonte da foto: o autor. Em casa.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Notícia atual

Senta na cama, vê algumas cenas da televisão e a desliga com o controle remoto. Retira as balas do revólver e as analisa uma a uma. Elimina uma delas e se detêm nas outras cinco. Recoloca-as no tambor, gira e fecha. Prepara-se para engatilhar, mas muda de idéia. Olha para o lado. Vê o frigobar e pega uma cerveja. Toma apenas um gole. Liga de novo a televisão. O filme pornô que se passava em uma casa de campo o faz reparar melhor no quarto onde se encontrava: piso de mármore, frigobar cheio, dois quadros com casais se amando (ou apenas transando?). O motel recém-inaugurado também oferecia uma gama de brinquedos eróticos, cujo catálogo se encontrava ao lado da cama; “Peça pelo número!”, estava na capa. Tomou mais um gole da cerveja e voltou a desligar a televisão. Engatilhou o revólver e fez a mira em uma parede. Abaixa novamente a arma e a deixa sobre a cama, a sua frente. Mais uma vez retira as balas, apreciando os detalhes de cada uma. Põe apenas uma delas no tambor e o gira, fechando-o rapidamente.

Lembrou-se das vítimas estúpidas da roleta da morte.

Não, ele sabia bem o que queria.

Não era preciso, mas, como um símbolo de que sua decisão era concreta, preencheu os outros espaços do tambor com as balas restantes. 

Dirigiu-se para a porta do quarto. Visualizou pela última vez o corpo da ex-noiva que, a contragosto, o acompanhara ao motel para conversar, negando mais uma vez o recomeço da relação. No seu peito esquerdo, a marca de sangue sinalizava o local de entrada do projétil.

Retirou do pescoço ainda quente da jovem a corrente de ouro com o pingente em forma de letra “M”, que ele dera de presente no dia do noivado, junto com a aliança, que Marcela já não usava.

Voltou para a cama. Retirou a bala já deflagrada dos lençóis e a examinou, como as outras. O pequeno cilindro dourado, sem o projétil que matara Marcela, foi colocado delicadamente em pé, no criado mudo. Em seguida mira o revólver em um quadro da parede, como a criar coragem. E rapidamente, voltou a arma para a própria cabeça. No átimo seguinte, apenas lamentou que o cartucho vazio de sua bala não fizesse companhia a outra.

Era, enfim, a última tentativa de unir-se a Marcela.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Velhinha com Alzheimer



Chegou devagar a sombra que eclipsa a memória

Primeiro foi a bisneta.
Seguiram-se os netos... 
... os filhos...
...por fim... o marido...

O falar delicado transmutou-se em balbucios e grunhidos, como bebê a buscar os pais

até que só lhe restou o silêncio
e o olhar absorto, igual o da criança procurando a mãe - que para ela já não existe há décadas



Partia aos poucos, como árvore de outono que no vagar seca


mas para renascer na estação seguinte













Fonte da foto: wikipédia. A pessoa retratada é a alemã Auguste Deter (1850-1906), primeira pessoa a ser diagnosticada com o Mal de Alzheimer.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Guerras






Na guerra entre o primeiro...






... e o segundo generais...














... quem perde são os terceiros.




Fonte das fotos: wikipédia

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Maria Baderna





Como bom atleta de final de semana, encontrava-me em minha corrida vespertina, realizada somente aos sábados (isso em caso de tempo bom). Para variar o caminho, saí de casa e não fui em direção ao parque. Meu destino naquele dia foi o campus da universidade.
Desacostumado com o esforço físico e castigado mais ainda pelo vigoroso Sol daquela tarde, já punha a língua de fora após dois quilômetros de percurso que me pareceram meia maratona.
Meu fôlego aumentou um pouco após a inesperada garoa que começou a cair. Contudo, a simpática chuvinha transformou-se em pouco tempo numa ameaçadora tempestade (efeitos do el niño...). Parei de correr e voltei-me num círculo a procura de um abrigo. A algumas dezenas de metros reconheci o imponente prédio da biblioteca universitária. Dirigi-me para lá correndo, gastando as últimas energias que possuía.
Cheguei à entrada do prédio arfando como uma pessoa afogada, mas procurei disfarçar haja vista a presença de simpáticas alunas no local. Fiquei na companhia delas que, como eu, esperavam a chuva diminuir um pouco para saírem do lugar.
Meus planos vieram por água abaixo (literalmente) quando uma rajada de vento praticamente me expulsou para dentro da biblioteca. Cheguei a óbvia conclusão de que, de bermuda e camiseta, debaixo daquela chuva e açoitado pelo vento, o máximo que conseguiria, se ficasse ali exposto, seria uma pneumonia.
Entrei no prédio e fiquei andando durante algum tempo pelos seus corredores, a fim de secar-me mais rápido. Entrei numa lanchonete e pedi um café. Pouco depois, já seco e aquecido, resolvi passear um pouco por entre os livros; sempre gostei de ler e queria descobrir as novidades.
Passeando por entre as estantes, deparei-me com um antigo livro de biografias, mas com uma particularidade: apenas mulheres estavam ali relacionadas, e todas tinham vivido no Brasil. Tirei-o da estante e me sentei em uma daquelas cabines que os universitários usam para o estudo.
Percorrendo o índice, encontrei as mais famosas personalidades brasileiras do sexo feminino: princesa Isabel, Bárbara Heliodora, Cecília Meireles e Maria Bonita, dentre tantas outras. E naquela extensa lista, reparei também em um nome que nunca ouvira falar: Maria Baderna.


Interessei-me de imediato por aquela história, afinal, já conhecia um pouco da biografia das outras mulheres.
“Com um nome desse, devia ser um poço de confusão, ou mesmo uma criminosa”, pensei.
Abri o livro na página indicada e, ao contrário das outras personalidades, não havia uma foto ou mesmo desenho para ilustrar a biografia. Era, sem dúvida, uma mulher do povo. Uma pena, pois queria ver o rosto daquela “baderneira” que merecera até mesmo um verbete de dicionário.
Pois bem, inicialmente descobri que Maria nascera na Europa em 1825, provavelmente na França ou Itália. Envolveu-se em movimentos políticos já na juventude e, em 1850, resolveu mudar-se para o Brasil. Após passar alguns meses em um navio, aportou no Rio de Janeiro, onde fixou residência.
“Até aqui, nada demais”, estranhei na hora.
E continuei: Maria se tornou dançarina, e deve ter alcançado algum destaque, pois segundo alguns, provocava desavenças e brigas entre os homens. Daí ter recebido o apelido de Maria Baderna.
Outros pesquisadores, no entanto, garantem que o apelido veio de outra forma: Maria também era abolicionista, e chegou a organizar quilombos no interior da província do Rio de Janeiro; ela participava dos movimentos sociais e encontros populares, que evidentemente reuniam uma multidão de pessoas ansiosas por reformas sociais e a própria liberdade. Com os nervos “à flor da pele”, era natural que eventualmente alguns desses eventos terminasse de forma mais agitada. As velhas raposas não perderam tempo em batizar a dançarina com esse apelido, numa clara maneira de tentar depreciá-la.
Interrompi a leitura e passei a refletir. Sem dúvida, a segunda versão me parecia mais convincente, afinal, a injúria é uma das formas mais eficientes para tentar anular a influência de uma pessoa que vai contra a ordem estabelecida e os interesses alheios. Para a chamada elite, pessoas com consciência política e baderneiros são simplesmente sinônimos.
Por fim, descobri que Maria morreu ainda jovem, em 1870. Tinha 45 anos e estava no interior da então província, talvez em um dos quilombos que ajudou a criar.
Fiquei alguns instantes imerso naquela pequena história, que mal ocupava uma página do livro e contrastava diretamente com a extensa biografia das princesas, nobres e grandes artistas ali descritas. Aquela simples página no meio de tantas para mim representava muito bem o que o povo significa na vida da nação como um todo: uma pequena folha de papel que muitas vezes passa despercebida.
Olhei em volta e percebi uma jovem paraplégica que procurava algum livro na estante; mais ao canto da sala, um senhor negro catalogava revistas para a seção de periódicos. Imaginei como Maria Baderna se contentaria ao perceber que, embora os negros, deficientes físicos (e outras minorias) ainda sofressem com o preconceito, eles já estavam livres, ao menos, dos grilhões de ferro, físicos e palpáveis. Restavam agora lhes libertar dos grilhões subjetivos, dos preconceitos e das condições menos favoráveis de vida. Mas isso, já era tarefa nossa.
Levantei-me após algum tempo e deixei a obra fechada sobre a mesa. Quando já saía do recinto, retornei repentinamente, voltei a abrir o livro naquela biografia, e o deixei aberto sobre uma mesa central: queria que outras pessoas descobrissem a história daquela interessante e injustiçada mulher.
E ao sair da biblioteca (a chuva já cessara), caminhando pelo campus em direção a minha casa, perguntei para mim mesmo qual seria o apelido mais adequado para aquela dançarina européia que, na casa dos 20 anos, se viu em um país tropical lutando pelo fim da escravidão:

Maria: Baderna ou VISIONÁRIA?








Obs: este conto foi publicado na antologia "Um nome de mulher", em 2002, sendo o 14º lugar do Prêmio Mário Cabral, organizado por Malva Barros, do extinto site www.armazem.literario.nom.br.


A fotografia que ilustra o conto pode ser encontrada em sites diversos da internet; basta procurar por Marietta Baderna nos sites de busca. O "Maria" foi um aportuguesamento de seu verdadeiro nome.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Selvagens




Praia da Paciência. Para alguns, a do Jó.
Revoada de animais revoltos
qual “Os Pássaros”, de Hichtcock.




Cercam a mim e pessoas próximas e nos bicam selvagens, sem dó.
O porquê? Ao mar, bóia o lixo e a tralha humana, entre si, envoltos
Da humanidade, o escroque.




Deixa pra lá. Os selvagens?
Somos nós.



Fotos: wikipédia

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Profissional liberal



O fiscal sai da casa avermelhada e conclui:






realmente não havia profissional mais liberal que a prostituta.








Fonte das fotos: Wikipédia

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Profissional de destaque



Era o ápice da carreira.

Finalmente, fora trancado em uma cela individual na penitenciária de segurança máxima.

Teria, à partir dali, o que ninguém conseguira oferecer-lhe:









Limites.









Obs: foto da Wikipédia


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Velho companheiro




O aterro sanitário se estendia por uma vasta área plana, já praticamente coberta pelas toneladas de entulho, móveis quebrados (alguns nem tanto), papéis e restos orgânicos, que eram levados para o local durante todo o dia.
Próxima a um riacho, uma grande montanha de dejetos se destacava ao longe. E é para lá que os animais se encaminham. Detêm-se famintos diante daquele monumental depósito de lixo como se fosse um oásis.
Pertencem a várias espécies diferentes e são representantes de toda a cadeia alimentar: insetos, aves, e mamíferos de pequeno e grande porte. Por conta disso cada um deles estuda cuidadosamente cada concorrente: odores, batimentos cardíacos, músculos enrijecidos, tudo é alvo de atenção.






No céu, abutres e urubus voam ansiosamente em círculos; quando percebessem a presença de alguma carniça esquecida no aterro, investiriam imediatamente sobre o cadáver.
As primeiras, contudo, a provarem do enorme banquete foram as baratas e formigas; tendo como vantagem o reduzido tamanho, conseguiram investir até o interior da montanha, onde puderam se deliciar com maior tranqüilidade.
Ratos e cães de rua então se aproximam, vagarosamente; as aves parecem mais confiantes e começam a pousar no aterro. Todos se misturam aos restos de alimentos ali esparramados e, excitados com a visão daquela enorme quantidade de entulho, se aproximam e começam a escalar o monte em busca de mais fartura.
Mas eis que a tranquilidade termina com a chegada de outro animal que, sem estudar os arredores, investe ferozmente contra a montanha. Inebriado, talvez, com o odor de algum alimento ali escondido, parecia tentar atravessá-la. Alguns dos cães, já acostumados com a presença constante daquele velho companheiro no dia a dia, não se amedrontam e o acompanham, tal como se estivessem num verdadeiro banquete comunitário.
Outros animais que ali estavam pela primeira vez, contudo, se assustaram com a violência do predador e recuaram um pouco. Mas a fome os fez permanecer nas proximidades, pesquisando os sacos de lixo recém trazidos por um caminhão, e à espera do afastamento daquele inesperado e perigoso concorrente.
Pouco depois um outro caminhão estaciona nas proximidades. O movimento dos seus ocupantes descarregando entulhos da construção civil assusta os animais, que não estavam acostumados com a presença de pessoas. Eles se afastam do local e resolvem caminhar em direção ao predador, pois, apesar de sua impetuosidade, demonstrava estar mais interessado no conteúdo da montanha do que em fazer-lhes mal.
Pouco depois o caminhão vai embora com os trabalhadores. Em seguida, o predador também se afasta.
É ele conhecido como Carlinhos: tem sete anos e se dirige então ao barraco onde vivia, calçando apenas um pé de chinelo. Na mão, carrega uma lata vazia, cujas bordas afiadas ele percorria ansioso com os dedos e a língua, a procura dos restos de leite condensado endurecido. No chão ele vai jogando insetos que estavam no interior da lata, já apreciando o sabor adocicado do creme.
Depois ele lavaria a lata e faria um cofrinho, para ajuntar as moedas que eventualmente encontrava. Moedas que ele descobriria depois já terem saído de circulação da humanidade.
Como ele, que talvez nunca fizera parte dela.

(E os animais, sem o perigoso concorrente, voltam tranquilos a montanha)




Fonte das fotos: aterro - wikipédia; urubus - Marcello Casal, também disponibilizada na Wikipédia.






segunda-feira, 6 de junho de 2011

Rodovia dos Pioneiros








— Cem quilômetros, Henrique?
— É isso. Cem.
— É um trecho curto, mas a estrada não está boa. Será que essas laranjas não vão se perder no caminho?
— Não tem problema, Afonsinho. Não tem espaço no porta-malas mas a gente arruma no banco de passageiros. Veja só...
Henrique e o irmão pegaram duas grandes sacolas de laranjas e alinharam uma em cima da outra no banco de trás. Antes amarraram os dois volumes e deram um jeito de prendê-los até com o cinto de segurança.
Estavam em uma fazenda, propriedade dos pais de Henrique e Afonsinho, que ali viviam. Henrique costumava passar habitualmente o final de semana no local, junto com a esposa e o filho de dez anos. Nesse momento, um domingo à tarde, se preparava para voltar para a cidade.
Já no carro, malas e laranjas prontas, o filho de Henrique, no banco de trás, tenta inutilmente colocar o cinto de segurança.
— Papai, acho que o cinto está preso nas laranjas.
— Tudo bem, Carlinhos. A viagem é curta e nós conhecemos a estrada. Pode deixar pra lá.
E partiram. De fato conheciam a estrada, e ironicamente batizavam com nomes os buracos no asfalto. A BR estava vazia, o que fazia Henrique aumentar na medida do possível a velocidade do automóvel.
No entanto, não contaram com um animal que repentinamente entrou na estrada. Num reflexo, Henrique acionou violentamente os freios; o animal – um pequeno cervo – ficou paralisado no meio da pista, enquanto o veículo se aproximava.
Uma fração de segundo depois, o animal deu um salto e prosseguiu seu caminho. O carro, rodopiando, invadiu em seguida o espaço que o filhote ocupara. Metros à frente parou, transverso na pista.
Imediatamente, Henrique levou o carro até o acostamento. Então, olhou num reflexo para a esposa.
— Comigo está tudo bem — respondeu a mulher, ainda um pouco tonta.
O casal olhou para trás: manchas de sangue riscavam o vidro lateral e o banco de passageiros. O garoto estava no chão do veículo, desmaiado, e sangrava muito.
Desesperados, dirigiram o carro rapidamente para a cidade mais próxima. Estacionaram em frente a um centro de saúde e, enquanto Vanessa pegava Carlinhos no colo, Henrique explicava o ocorrido para a enfermeira da recepção.
O garoto estava inconsciente e foi levado para a emergência. Após a chegada do médico, constataram-se alguns cortes e uma fratura no nariz. Felizmente, ele não corria risco de vida; mas precisava passar a noite no local, em observação.
Já de noite, acordado e na companhia da mãe, Carlinhos acompanhava um filme na televisão quando seu pai entrou, com um copo na mão.
— Tome, meu filho, vai ser bom pra você.
— E o que é, papai?
— Suco de laranja, feito com as frutas que a gente trazia da fazenda. Como estavam bem amarradas e protegidas, elas não se perderam no acidente...






Crédito das fotos: a primeira é minha mesmo, foi tirada na estrada que liga a cidade de Cavalcante (GO) ao povoado kalunga Engenho II, um antigo quilombo que hoje vive do turismo, por causa das cachoeiras.
A segunda foto é do wikipédia.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Celebridade






Surgira para o mundo das celebridades após a participação em um reality show.
Depois de sair da “casa”, já reconhecido como um dos drag queens mais criativos do mundo LGBTTXYZ, posou nu várias vezes para a G Magazine e revistas congêneres, tornou-se destaque anual de paradas gays e estrelou uma série de filmes pornôs voltados para o público homo.
Após décadas de sucesso, escreveu sua bombástica autobiografia e espantou meio mundo, após revelar o que ninguém esperava...
...Assumiu a heterossexualidade.





Crédito da foto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Isabelita_dos_Patins


Obs: as pessoas da foto, Salete Campari e Isabelita dos Patins, apenas ilustram a historieta acima e não tem suas biografias retratadas na mesma.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

José Alencar - herói ou homem comum?

"O mineiro só é solidário no câncer". Essa enigmática frase, atribuída por alguns a Otto Lara Resende e a outros a Nelson Rodrigues, que a usou em uma peça, remeteu-me a batalha de José Alencar contra o câncer, e ao apoio integralmente emocional que o político recebeu da população e da imprensa. Podemos, contudo, ampliar as fronteiras geográficas e sociais da frase em questão: entendo que o ser humano em geral é solidário com os demais em situação de grande sofrimento, e aí incluímos tanto as tragédias naturais que afligem populações inteiras de uma vez só, como a luta de pessoas amigas ou famosas contra determinada doença.

O sofrimento diminui a diferença entre as pessoas. Doenças e dramas sérios são capazes de aproximar ou reaproximar tanto antigos desafetos como pessoas desconhecidas - vide a quantidade de doações feitas às vítimas anuais de enchentes no Brasil; a iminência da morte faz com que cada um releve o mal feito pelo outro, ambos querendo apagar antigos rancores e pendências emocionais. Na psicologia, chamamos isso de "fechar a Gestalt", que, em suma, seria como fechar de vez um ciclo. No caso de vítimas de desastres naturais, desconhecidas para muitos, tende-se a associar o sofrimento do outro com o de si mesmo: e se fosse comigo?

O que sucedeu com a opinião pública a respeito da luta do ex vice-presidente José Alencar ilustra bem esse fato. Embora poucos dos milhões de habitantes do país o conhecessem pessoalmente, seu cargo e a visibilidade política que evidentemente tinha o colocavam como pessoa quase íntima da população. Sua luta contra a doença, no entanto, em nada difere do que a maioria das pessoas faria nessa situação: lutar com todos os meios para preservar a própria vida. Muitas pessoas sucumbiriam sem demora, não necessariamente pela resistência biológica, mas pela falta de condições financeiras para se tratar. José Alencar fez 15 cirurgias no decorrer de quase duas décadas, inclusive no exterior. Aos poucos tornou-se um herói pela vida; não desdenho de seu sofrimento, mas é mais fácil tornar-se herói quando se tem condições financeiras para bancar décadas de tratamento e ter a luta pela vida divulgada emocionalmente dia a dia pela imprensa.

Essa verdadeira "santificação" já foi vista uma década atrás, quando Mário Covas também enfrentou durante alguns anos a mesma doença que o recém-falecido Alencar. Embora ambos tenham sido políticos tidos como honestos, e de fato jamais possam ser comparados a ícones da desonestidade e da má política como Paulo Maluf ou Joaquim Roriz, também não podem ser alçados a modelos irrestritos de conduta. Covas chegou a brigar com manifestantes na rua e José Alencar, embora tenha dirigido sua vida política de forma discreta, sem percalços, manchou sua reputação ao se negar a fazer um exame de DNA, que comprovaria ou não a paternidade de uma professora já aposentada. Exame esse postergado desde 2001. Seria o medo da desonra, a que o político se referiu algumas vezes nas últimas semanas de vida? Ter um filho fora do casamento, no entanto, para mim é menos desonroso que renegá-lo anos a fio. E nunca é desonra reconhecer deslizes do passado.

A luta pela vida e a serenidade pela proximidade da morte são atitudes que devem sim ser louváveis, mas de forma alguma apagam os erros e equívocos das pessoas durante sua vida. Tampouco se trata de heroísmo, como relatado por setores da imprensa. Ser herói é sacrificar-se pelos outros, como o fez o policial que ajudou a deter o assassino dos adolescentes em Realengo, os bombeiros em situações diversas de salvamento, os funcionários japoneses que entram na usina de Fukushima para avaliar os riscos para a população, ou alguém que luta com o bandido para proteger a pessoa amada.


E então: ...herói ou um homem comum?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Catetinho - Gama (DF)



O Catetinho foi concebido para abrigar o presidente JK durante a construção da nova capital. Seu projeto foi rascunhado por Oscar Niemeyer em um guardanapo, e a construção, toda em madeira, demorou apenas dez dias. O local escolhido foi uma antiga fazenda, onde também foi construída uma pista de pouso. O nome Catetinho foi uma sugestão do compositor Dilermando Reis, em alusão ao Palácio do Catete, sede do governo federal na época. A construção - erguida em 1956 - era formada por alguns quartos, um exclusivo para o presidente e sua esposa, e os demais para autoridades ou visitantes, além de um gabinete, onde JK despachava e se reunia com os engenheiros responsáveis pela construção de Brasília. Juscelino era fã de serestas e da bossa nova, e recebeu visitas de vários artistas no Catetinho, dentre eles Vinicius de Moraes e Tom Jobim, que criaram, após visitar uma mina d' água nas proximidades da construção, o clássico "Água de beber" (do refrão, "água de beber, camará").

O museu preserva vários móveis originais, e onde não foi possível contar com tais objetos, procurou retratar o ambiente da década de 50 através de aquisições em antiquários. Os quartos usados por JK e autoridades mantém seus móveis originais; um dos quartos usados originalmente para receber hóspedes tornou-se uma espécie de memorial dos artistas que ali visitaram, com fotos e revistas da época. Atrás do Catetinho, ergue-se um prédio menor, também em madeira, originalmente usado como lavanderia, área de serviço e cozinha. Parte das instalações mantem-se fiel ao original, em outras áreas se veem várias fotos antigas do local.


Ao redor do Catetinho ergue-se um belo bosque, ainda com a mina que inspirou a criação da já citada "Água de beber", além de uma caixa d' água usada na época.



Quarto de JK

Gabinete de JK


Vinicius de Moraes e Tom Jobim no Catetinho


Um dos quartos de hóspede, hoje um memorial para os visitantes artistas. O violão era do seresteiro Dilermando Reis.


A mina que inspirou "Água de beber"



Cozinha



ENDEREÇO: BR 040, Km 0 - Gama (parte sul do DF)


TELEFONE: (61) 3338-8807 / (61) 3338-8803


HORÁRIO DE VISITAÇÃO: terça a domingo, de 9 às 17 horas


ESTACIONAMENTO: gratuito


ENTRADA: gratuita