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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A vaquinha do Genoíno




José Genoíno é mentiroso ou incompetente?
Pergunto isso ao me deparar com a notícia de que correligionários criaram um site para arrecadar dinheiro, a fim de que o ex-deputado condenado pague a multa de quase 500 mil reais por conta do Mensalão. A família de Genoíno alega que ele não tem o dinheiro suficiente para pagar esse valor, além de possuir apenas um apartamento em seu nome.
É aí que entra a pergunta acima.
Acompanhem-me: José Genoíno, durante mais de 20 anos, foi deputado estadual por São Paulo; exerceu outros cargos no decorrer de sua vida pública, então, eu pergunto: o que Genoíno fez com essa bolada? Seus correligionários me farão rir se alegarem que o petista repassou esses valores para obras sociais ou mesmo para o partido.
Como entender que, em 30 anos de carreira, sempre com expressivo salário, ele não foi capaz de adquirir bens, para usufruto e investimento? Que não foi capaz de investir na poupança ou fundo de investimentos? Ou o ex-deputado é um mentiroso, que não quer tirar dinheiro do próprio bolso para pagar a multa, ou realmente não possui tal quantia; nesse caso, podemos inferir que, se é incompetente a ponto de não oferecer um bem estar a própria família depois de três décadas, o que deixou de fazer pelo Estado que o elegeu nessas décadas.
E então, qual a sua opinião: o ex-deputado é mentiroso ou incompetente?

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Essa cronicazinha já está desatualizada parcialmente. José Genoíno conseguiu pagar sua multa; mas campanhas semelhantes serão criadas para Delúbio Soares, José Dirceu e João Paulo Cunha. Mudam-se os personagens, não a surrealidade da situação.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Ativistas x Cientistas


O Brasil está entrando em um caminho perigoso: movido pela inércia do Judiciário e pela corrupção que campeia o Executivo e o Legislativo, a população resolveu não esperar e fazer justiça com as próprias mãos.
O problema é o que cada um entende como justiça.
Nessa semana, dezenas de ativistas pelos direitos dos animais invadiram um laboratório particular legalmente credenciado e roubaram 178 beagles que ali estavam a serviço da ciência; junto com os animais, destruíram também documentos e equipamentos. A alegação era a de que o laboratório torturava os animais e de que o Ministério Público não se pronunciava a respeito.
A primeira vista, é fácil ficar do lado dos ativistas. No entanto, basta um pouco de discernimento e de pé no chão para perceber que a atitude deles prejudicou até mesmo a causa que apoiavam, a de que o Laboratório Royal maltratava os bichos. Agora, sem os animais e os documentos, provavelmente o processo (penal?) será extinto por falta de provas.
Pergunto-me também se o laboratório tivesse convocado cientistas e simpatizantes para fazer frente a invasão. Ou seja: em vez de o Judiciário definir a questão, tudo pareceria se resolver com os grupos se digladiando. Mais Idade Média, impossível.
Não sou especialista em biologia e por isso não posso afirmar se é mesmo possível substituir os animais em toda e qualquer pesquisa. Particularmente, creio que não: programas de computador não me parecem capazes de prever as nuances de cada substância inoculada em um organismo vivo. Os mamíferos em geral são escolhidos para experiências em laboratório justamente por causa disso, visto que sua biologia interna é muito parecida com a dos humanos: todos têm sistemas respiratórios, circulatórios e reprodutivos com os mesmos órgãos que as pessoas.
Em todos os portais de notícias a invasão foi um dos principais assuntos da semana. No Yahoo, que eu costumo acompanhar mais por causa de meu e-mail, foi fácil perceber que cerca de 70% das pessoas que comentavam a notícia apoiavam os ativistas; questionados por alguns dos 30% restantes sobre como os cientistas pesquisariam novos medicamentos sem os animais, as respostas foram estarrecedoras: que se usassem então presidiários.
Embora certamente muitas pessoas não sejam dignas de serem tratadas como humanos, não é rebaixando-as ainda mais que a humanidade evoluirá. Uma das últimas pessoas a levar a sério os experimentos com humanos foi o médico nazista Josef Mengele, e a simples palavra “nazista” ao lado de seu nome já nos faz imaginar as consequências de tais experiências. Ou seja, boa parte dos ativistas parece mesmo acreditar que o melhor é que se usem seres humanos para tais experiências, inclusive não se importando com a eventual morte de tais pessoas. Pretendem criar uma nova ordem mundial e boa parte não se importaria em copiar a ideologia eugenista dos nazistas para tanto.
Em suma, estamos bem de ativistas, hein?
A propósito, dois dos beagles já foram resgatados pela polícia. Estavam abandonados, caminhando perto do laboratório.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Lanterna Verde é gay? Sei...




A "revelação" de que o personagem Lanterna Verde é gay explica o porquê de alguns escritores matarem seus próprios personagens, a  fim de que não sejam usados por outros após sua morte, eventualmente de uma forma que não gostariam. O caso mais famoso é o de Agatha Christie, que deu fim a seu famoso detetive Hercule Poirot no livro Cai o Pano; Sherlock Holmes também foi "assassinado" por Conan Doyle, mas voltou devido ao enorme apelo popular.

Lanterna Verde foi criado, em 1940, pelos cartunistas norte-americanos Martin Nodell (falecido em 2006) e Bil Finger (falecido em 1974). Foi reformulado na década de 1960 e, ao contrário do Super-homem - que sempre teve Clark Kent como sua "identidade secreta" -  muitos personagens adotaram a alcunha Lanterna Verde. O que eu particularmente entendo é que os traços biográficos de qualquer personagem são criados e só podem ser alterados pelo seu idealizador. Na ausência deste, necessariamente não morre sua criação, mas tudo o que terceiros acrescentam a ele é apropriação do nome e, talvez no presente caso, pura demagogia. É como se alguém inventasse que o Drácula, criado em 1897 por Bram Stoker, tinha a característica de sair à noite para beber sangue por causa de alguma doença, a fim de direcionar a atenção mundial para tal doença. Legalmente até poderia ser viável, mas nem todos levariam à sério tal "revelação", justamente porque não partiu de seus idealizadores.

É certo que muitos personagens, após a morte de seus criadores, tem sua denominação, aparência física e características controladas por grandes empresas do entretenimento. Assim, é plenamente válido que tais empresas usem-nos em novas plataformas - como o cinema - e na publicação de revistas e livros. Mas alterar ou acrescentar um dado "biográfico" que, na verdade, não tem relevância alguma nos enredos, está mais para a fabricação de falsas polêmicas e vendagem de produtos.

A DC Comics (que detém a propriedade intelectual de vários personagens super-heróis, incluindo o Lanterna Verde) pode até intencionar o apoio a causa homossexual no mundo. Mas certamente está mais preocupada com um possível aumento de venda de suas revistas. A indústria de quadrinhos nos Estados Unidos tem decaído nos últimos anos e uma das maneiras de diminuir os prejuízos é criar eventos absolutamente originais nas histórias. Além da orientação sexual de Lanterna Verde, outro fato marcante nesse sentido foi a morte do Super-Homem, um conjunto de histórias em quadrinhos publicado em 1992. Outra maneira de manter o patrimônio das empresas é ceder os personagens para o cinema, daí a grande quantidade de filmes com super-heróis hoje em dia.

Embora seja importante a participação da indústria cultural nas demandas sociais, creio que existem formas mais convincentes de se levantar determinada bandeira. Talvez mais útil fosse a criação de novos personagens, a representarem categorias pouco respeitadas no decorrer da história recente: muçulmanos, homossexuais, negros, deficientes, adictos (viciados em drogas), exilados políticos e, a partir daí, mesclarem essas novas criações com os antigos. Desta forma, sim, representariam um microcosmo da sociedade e seriam uma forma de mostrar as pessoas a possibilidade da convivência harmônica com qualquer grupo.


Fonte da ilustração: Wikipédia

sexta-feira, 15 de abril de 2011

José Alencar - herói ou homem comum?

"O mineiro só é solidário no câncer". Essa enigmática frase, atribuída por alguns a Otto Lara Resende e a outros a Nelson Rodrigues, que a usou em uma peça, remeteu-me a batalha de José Alencar contra o câncer, e ao apoio integralmente emocional que o político recebeu da população e da imprensa. Podemos, contudo, ampliar as fronteiras geográficas e sociais da frase em questão: entendo que o ser humano em geral é solidário com os demais em situação de grande sofrimento, e aí incluímos tanto as tragédias naturais que afligem populações inteiras de uma vez só, como a luta de pessoas amigas ou famosas contra determinada doença.

O sofrimento diminui a diferença entre as pessoas. Doenças e dramas sérios são capazes de aproximar ou reaproximar tanto antigos desafetos como pessoas desconhecidas - vide a quantidade de doações feitas às vítimas anuais de enchentes no Brasil; a iminência da morte faz com que cada um releve o mal feito pelo outro, ambos querendo apagar antigos rancores e pendências emocionais. Na psicologia, chamamos isso de "fechar a Gestalt", que, em suma, seria como fechar de vez um ciclo. No caso de vítimas de desastres naturais, desconhecidas para muitos, tende-se a associar o sofrimento do outro com o de si mesmo: e se fosse comigo?

O que sucedeu com a opinião pública a respeito da luta do ex vice-presidente José Alencar ilustra bem esse fato. Embora poucos dos milhões de habitantes do país o conhecessem pessoalmente, seu cargo e a visibilidade política que evidentemente tinha o colocavam como pessoa quase íntima da população. Sua luta contra a doença, no entanto, em nada difere do que a maioria das pessoas faria nessa situação: lutar com todos os meios para preservar a própria vida. Muitas pessoas sucumbiriam sem demora, não necessariamente pela resistência biológica, mas pela falta de condições financeiras para se tratar. José Alencar fez 15 cirurgias no decorrer de quase duas décadas, inclusive no exterior. Aos poucos tornou-se um herói pela vida; não desdenho de seu sofrimento, mas é mais fácil tornar-se herói quando se tem condições financeiras para bancar décadas de tratamento e ter a luta pela vida divulgada emocionalmente dia a dia pela imprensa.

Essa verdadeira "santificação" já foi vista uma década atrás, quando Mário Covas também enfrentou durante alguns anos a mesma doença que o recém-falecido Alencar. Embora ambos tenham sido políticos tidos como honestos, e de fato jamais possam ser comparados a ícones da desonestidade e da má política como Paulo Maluf ou Joaquim Roriz, também não podem ser alçados a modelos irrestritos de conduta. Covas chegou a brigar com manifestantes na rua e José Alencar, embora tenha dirigido sua vida política de forma discreta, sem percalços, manchou sua reputação ao se negar a fazer um exame de DNA, que comprovaria ou não a paternidade de uma professora já aposentada. Exame esse postergado desde 2001. Seria o medo da desonra, a que o político se referiu algumas vezes nas últimas semanas de vida? Ter um filho fora do casamento, no entanto, para mim é menos desonroso que renegá-lo anos a fio. E nunca é desonra reconhecer deslizes do passado.

A luta pela vida e a serenidade pela proximidade da morte são atitudes que devem sim ser louváveis, mas de forma alguma apagam os erros e equívocos das pessoas durante sua vida. Tampouco se trata de heroísmo, como relatado por setores da imprensa. Ser herói é sacrificar-se pelos outros, como o fez o policial que ajudou a deter o assassino dos adolescentes em Realengo, os bombeiros em situações diversas de salvamento, os funcionários japoneses que entram na usina de Fukushima para avaliar os riscos para a população, ou alguém que luta com o bandido para proteger a pessoa amada.


E então: ...herói ou um homem comum?